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 Gus
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    Há dias neste 2021 em que Simone Souza Bernardes, de 49 anos, deixa de comer para alimentar os filhos pequenos. Tem quinze. Mora com nove. Já estava enquadrada na linha de extrema pobreza antes da pandemia. Mas vive agora o medo maior: o de que um de seus filhos ou ela própria morra de fome. Quando come, é uma vez por dia.

    A família viveu um período menos dramático com o auxílio emergencial. No quintal com dez galinhas, sem água encanada, Simone conta com um poço artesiano e um fogão a lenha para cozinhar a exígua comida, quando surge.

    A pandemia a levou à miséria, salvo no período em que recebeu o auxílio mensal de R$ 1.200 pago pelo governo a mulheres que criam filhos sozinhas entre maio e setembro e de R$ 600 entre outubro e dezembro do ano passado. Ela sempre fez bicos para sobreviver, mas viu os serviços diminuírem.

    A despensa em que Simone costuma armazenar alimentos fica no quarto em que dorme com os filhos. Nunca esteve tão vazia. Guarda seis pacotes de feijão e um de sal. Sua única renda hoje é o Bolsa Família. Não dá para muita coisa.

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    O feijão é herança do tempo, no ano passado, quando a igreja evangélica ao lado de seu casebre de madeira distribuía cestas básicas aos moradores do bairro de Campo Alegre, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, onde ela mora.

    Aquela quinta-feira era um dia de alívio, porque um vizinho trouxera abóbora, cenoura, batata e quiabo. Mesmo sem tempero, tinha no olhar a alegria de ter algo na panela para dar aos filhos.

    Aline, a mais nova, 6 anos, repetia todo o tempo que tinha fome. Não sossegou até encontrar uma forma com farelos de um bolo consumido há dias. Tratou de comer cada grão. Aquela mistura de legumes que a mãe preparava, já fora da hora do almoço, seria a única refeição do dia.

    O economista e pesquisador da FGV Daniel Duque, estudioso da desigualdade, calcula que cerca de 14% dos brasileiros que não eram pobres em 2019, antes da chegada do coronavírus, passaram a integrar as faixas da pobreza e da pobreza extrema no início de 2021 com o alto desemprego, a redução de atividades e o fim do auxílio emergencial. São 22 milhões de novos pobres.

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    A nova pobreza também afeta quem já era pobre. Mesmo já na base da pirâmide social do país, Simone vive uma decadência econômica, que a leva agora à miséria. É um retrato de muitos que O GLOBO encontrou nas duas últimas semanas em áreas carentes do Rio e da Baixada Fluminense.

    Segundo Duque, 16% dos que já eram pobres em 2019 passaram para a extrema pobreza, com renda per capita inferior a R$ 157. São 6,2 milhões de pessoas.

    Daniel Souza, presidente do Conselho da ONG Ação da Cidadania, diz que os dirigentes da ONG em todos os estados têm ouvido relatos parecidos com os de Simone, mostrando como o brusco e repentino achatamento da renda provocado pela pandemia foi forte a ponto de trazer de volta a fome como rotina.

    Enquanto governo e Congresso não chegam a uma solução fiscal para viabilizar a volta do auxílio emergencial, o número de brasileiros em insegurança alimentar, sem ingerir o mínimo de calorias necessárias por dia, chega a 10,3 milhões nos cálculos da ONG.

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    Vitória dos Santos Macedo, de 21 anos, era ambulante na praia. Com a pandemia, deixou de trabalhar. Vivendo com o marido no Vale dos Eucaliptos, em Senador de Vasconcelos, Zona Oeste do Rio, a casa deles não tem água encanada, nem fogão, nem geladeira Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

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    Simone Souza Bernardes, 49 anos. Ela e os filhos, Aline, 6 anos, Marcos e Naiara, de 15, vivem na zona rural de Nova Iguaçu, Baixada Fluminense Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

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    Com o alto preço do gás, Simone, de 49 anos, é obrigada a retroceder à lenha para cozinhar no quintal de casa Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

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    Dados mostram que, com impacto da queda de renda durante a pandemia, 14% dos brasileiros que não eram considerados pobres em 2019 estão nesta situação em 2021 Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

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    No caixote onde Simone está sentada, estão guardados os poucos mantimentos que se tem para a família, um pouco de farinha e feijão Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

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    A pequena Aline come as migalhas de um bolo Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

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    Casal Gustavo Moura e Naomi da Silva, no quartinho onde vivem no Jardim dos Eucaliptos, em Senador Vasconcellos. Eles estão sem trabalhar e esperam o primeiro filho Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

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    Júlio, que preferiu não mostrar o rosto, era lanterneiro e perdeu o emprego na pandemia. Com problemas na família, foi morar recentemente na rua, dormindo na Praça Jardim do Méier, Zona Norte do Rio Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

    — Tenho certeza de que, em 2022, quando o Mapa da Fome for reeditado, o Brasil estará lá. É o que estamos vendo país afora. Tínhamos saído em 2014 — lembra Souza
    'Com o fim do auxílio, a escala dessa insegurança aumenta. Mesmo que volte, reverter isso será muito difícil', diz o coordenador

    — A fome voltou — corrobora Gonzalo Vecina, professor de Saúde Pública da USP.

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    Eliane Moura Ribeiro cozinha com lenha nos fundos da casa porque não tem dinheiro para gás. Comemora quando tem salsicha Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

    A lenha de Simone é um jeito de evitar o botijão de gás, que chega a custar de R$ 100 a R$ 150 na vizinhança. Ela ganhou de presente um fogão a gás, mas não usa.[/b] Antes da pandemia, com os bicos que fazia, a dona de casa, que já trabalhou num lixão próximo dali, conseguia até R$ 600 por mês.

    No quadro de medo em que vive, as galinhas no quintal se tornaram fonte de renda. Em vez de alimentar a família com elas, vende cada uma a R$ 30 para comprar pescoço e pé no açougue.
    Com isso, consegue comprar comida em maior quantidade, explica.
    'O maior medo da minha vida é a fome. Nunca foi fácil, mas agora ficou bem ruim. Tinha melhorado com o auxílio. Comi três vezes por dia. Hoje, como o que aparece. Fubá, arroz, o que for', diz Simone, que chora, num olhar distante

    Eliane Moreira Ribeiro, de 64 anos, abandonou o fogão e improvisa um a lenha. Ela mora no Vale dos Eucaliptos, uma comunidade em Campo Grande, na Zona Oeste do Rio, que tem sinais do agravamento da pobreza por todos os lados, assim como tantas outras da segunda maior cidade do país.

    O que salva a família é o benefício que o filho, Elias Moura, de 23 anos, com síndrome de Down, recebe do governo — pouco mais de um salário mínimo. Ao lado da casa dela, em um quarto, vive o filho mais velho, Gustavo Moura, de 30 anos.

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    Panelas vazias: Gustavo Moura e Naomi da Silva, vivem no quartinho ao lado da casa da mãe dele, Eliane. Eles esperam um filho, mas não têm trabalho e nem renda Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

    Ele já chegou a ganhar R$ 1.400 por mês como operário em obras. Agora, com a mulher, Naomi Silva, de 18 anos , grávida de três meses, vê a procura por serviços como os que sabe fazer cair.

    A família se alimenta com cestas básicas que eventualmente aparecem e até mesmo com restos de carne que um açougue descarta. Antes, só os cachorros da vizinhança comiam, conta Eliane. Naquela sexta-feira, ela estava feliz. Tinha conseguido comprar salsicha para alimentar a família.

    É raro encontrar moradores com máscara no Vale dos Eucaliptos. Ao ouvir uma pergunta sobre sobre a pandemia, Eliane diz que nem clínica da família existe por perto, muito menos exame. O medo de adoecer e morrer ali é outro:
    'A pandemia aqui é a da fome. O sofrimento aumentou muito. Mas, sabe, o dia em que como meu angu é um dia feliz', diz Eliane


    O Vale dos Eucaliptos é um microcosmo exemplar do quanto a pandemia agravou a pobreza no país. À carência de esgoto, à água precária, à ausência de calçamento e ao alagamento diante das chuvas fortes se somou a falta de renda e, por consequência imediata, de uma rotina alimentar.

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    Vitória dos Santos Macedo, de 21 anos, parou de trabalhar como ambulante porque é diabética e teme se expor ao coronavírus. Vive com o marido sem água encanada e sem fogão ou geladeira. Não faz três refeições todos os dias Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

    Vitória dos Santos ganhava R$ 100 a cada dia em que saía para vender picolé na Praia de Guaratiba. Aos 21 anos, diabética, não pode mais ir para não se expor ao coronavírus. Ela mora em uma das casas mais altas do Vale com o marido, desempregado.

    A perda da carteira de identidade a levou ao pesadelo de não conseguir se habilitar para o auxílio emergencial. Faz uma refeição por dia. Muitas vezes, nenhuma.

    — Tem dia que é só um prato de arroz. Tem dia que é uma mistura de arroz com feijão. A gente tinha pouco. Agora, não tem nada — conta.






    Fonte: https://oglobo.globo.com/economia/sem-a ... e-24891545

     vilela_09
  •  30624 posts
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    ligo

    triste é eu não ter conseguido comprar o ps5 ainda

     Jordanes do Mar Jônico
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    no Brasil isso já acontece sem pandemia, e quase ninguém se preocupa.

    meio óbvio que a sociedade civil é que acaba dando o suporte para quem tem alcance de receber a ajuda.

    quem se importa e se preocupa, não vai ficar esperando governo agir.

     Bliss
  •  32441 posts
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    Bolsonarismo usando a pandemia de muleta pra justificar irresponsabilidade fiscal por um problema que existe há décadas no Brasil e que antigamente chamavam de "vagabundos recebedores de bolsa esmola"

    Que beleza
    Alric, ArnaldoCésar, Rlim e 6 outros  isso

     Chinelada na Bixarada
  •  14124 posts
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    É um sacrifício necessário a economia a gente vê depois, eu aguento mais um ano de home office, netflix e ifood de boa.
    Minha única exigência é que o papai estado cuide da minha saúde mantendo todos em casa e punindo com todo o rigor da lei esses aglomeradores irresponsáveis.

     GAMEXR BR
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    Uma década perdida mais pandemia, resultado não tinha como ser diferente.

     Alric
  •  9432 posts
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    Nego pra dar uma mamadinha no Bolso finge que isso nunca aconteceu na história do Brasil :lol:
    Bliss, Rlim, Mucamo  isso

     v00d00
  •  2352 posts
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    Lamentável ver isso acontecendo com mais intensidade com nossos irmãos brasileiros.
    Extremamente lamentável ver alguns users zombando da situação ou tentando defender político .

    Por experiência familiar própria , sei que a fome eh uma das coisas que mais doem na tua existência. Principalmente quando vc tem filhos.


    Espero que todos que fazem pouco disso vão se foderem
    Pelo  isso

     v00d00
  •  2352 posts
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    Sudit escreveu: Na época do Lula não havia isso.
    Por experiência de conhecer o interior do nordeste em um dos estados mais pobres, posso dizer que fala a verdade.

    Foi uma mudança grande. Se o que ele fez foi certo ou errado eh outra questão, mas quem estava na ponta e precisava, nunca teve uma vida com tanta dignidade ..
    Gus, helex  isso

     Piccolo_san
  •  48937 posts
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    Sinceramente Gus, você não pode reclamar dos esquerdistas e justiceiro sociais nunca mais por que você está agindo igualzinho a eles.

    Sem escrúpulo nenhum.

     Rlim
  •  21184 posts
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    Piccolo_san escreveu: Sinceramente Gus, você não pode reclamar dos esquerdistas e justiceiro sociais nunca mais por que você está agindo igualzinho a eles.

    Sem escrúpulo nenhum.
    Não fala isso do memezeiro engraçadinho capacho do fórum.

    Ele vai postar um memezinho de resposta.

     Salieri
  •  30757 posts
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    Infelizmente isso já existia antes e vai continuar existindo por muito, muito tempo. Sinceramente eu duvido que algum dia o Brasil vai conseguir eliminar todos esses problemas sociais e de pobreza, pra mim isso vai continuar existindo pra sempre, infelizmente.
    Editado pela última vez por Salieri em 22/02/2021, 14:27, em um total de 1 vez.

     ArnaldoCésar
  •  398 posts
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    Bolsonaristas foram de "ensinar a pescar o próprio peixe" pra defensores de bolsa esmola :lol:

     Galt
  •  11342 posts
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    Latam vai ser o continente mais pobre do mundo logo logo.

    Vamos ter mães moçambicanas mandando os filhos comerem tudo pq tem criança passando fome no BR.
    Gus  isso

     Gus
  •  10523 posts
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    Piccolo_san escreveu: Sinceramente Gus, você não pode reclamar dos esquerdistas e justiceiro sociais nunca mais por que você está agindo igualzinho a eles.

    Sem escrúpulo nenhum.


    Deduziu isso tudo porque eu postei uma reportagem falando que o pessoal tá passando fome por causa da pandemia??? :lol: :lol: :lol:

     Piccolo_san
  •  48937 posts
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    Eu sei qual foi a sua intenção. Deixa de ser tonto.

     Gus
  •  10523 posts
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    v00d00 escreveu: Lamentável ver isso acontecendo com mais intensidade com nossos irmãos brasileiros.
    Extremamente lamentável ver alguns users zombando da situação ou tentando defender político .

    Por experiência familiar própria , sei que a fome eh uma das coisas que mais doem na tua existência. Principalmente quando vc tem filhos.


    Espero que todos que fazem pouco disso vão se foderem
    Quando se deixa uma criança passar fome na idade de desenvolvimento você está a condenando a uma vida pobre e miserável, inanição afeta demais o desenvolvimento cerebral pois o alimento que deveria fornecer energia para o cérebro está sendo consumido pelo resto do corpo para tentar não morrer de fome.

     E2EK1EL
  •  14940 posts
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    Porra, essa mulher com 15 filhos aí é pobre com ou sem pandemia.

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